• Fernanda Ramos

Muito além da gordura saturada!

Atualizado: 14 de Jul de 2019


A gordura, principalmente a saturada, tem sido considerada a grande vilã na gênese da aterosclerose e da doença coronariana, especialmente a partir de 1950, quando estudos sobre os fatores de risco destas começaram a ser divulgados e guias de consumo alimentar passaram a fazer parte da agenda de diversos países para a prevenção das doenças cardiovasculares, emergentes entre as causas de mortalidade populacional.

Mas, será mesmo que ela é protagonista dessa história?

A verdade é que, desde então, o consumo de gorduras vem restrito e após mais de meio século, as diretrizes de consumo alimentar mantém essa recomendação. Nesse período, o número de estudos aumentou e seus desenhos metodológicos melhoraram, e, sem surpresas, começou a ficar evidente que há controvérsias nas origens da aterosclerose e no desenvolvimento das coronariopatias no que se refere à alimentação. Veja o vídeo ilustrativo da fisiopatologia da aterosclerose.


Já na década de 1960, estudos começaram a sugerir que os níveis de glicose sanguíneos eram melhores preditores de aterosclerose do que colesterol sérico e hipertensão, através da indução à hipertrigliceridemia pelo excesso de carboidratos.

Atualmente, sabe-se que o consumo excessivo de carboidratos, especialmente os açúcares de adição, pode aumentar os níveis séricos de triglicérides, colesterol e LDL, além dos riscos metabólicos, como resistência à insulina, intolerância à glicose, aumento dos níveis séricos de ácido úrico. A própria hiperglicemia decorrente do consumo excessivo de açúcares pode induzir à inflamação vascular. Também ocorre aumento da lipogênese, indução à dislipidemia, inflamação e estresse oxidativo a partir da hiperinsulinemia. Todas essas alterações metabólicas são fatores chave no desenvolvimento de doença coronariana.

Além disso, é cada vez mais comum o consumo de bebidas açucaradas, ricas em frutose e HFCS (high fructose corn syrup), que aumentam a oxidação de LDL, levam à resistência à leptina e aumentam o risco de doença hepática não alcoólica, fatores de risco para doença cardiovascular.

Os estudos, ainda hoje, são controversos em mostrar alterações de morbi-mortalidade por doença cardiovascular com a modificação/redução de gordura total ou saturada na alimentação. Isso não torna a gordura saturada inocente. Deve-se considerar o tipo de gordura saturada presente nos alimentos, já que alguns tipos atuam como fator protetor e outros como fator de risco para doença cardíaca.

Logo, tem-se questionado as recomendações das diretrizes sobre o consumo de gordura total e seus derivados, considerando as evidências insuficientes da gordura saturada estar associada ao aumento do risco de doença coronariana e o consumo excessivo de carboidratos trazer tantos prejuízos.

O que temos de fato, recente na história da humanidade, na era dos produtos alimentares ultraprocessados, é a presença de açúcares simples e gordura saturada ou gordura trans no mesmo produto.

O problema então, não é, primariamente, o açúcar e a gordura dos alimentos, mas o consumo de alimentos ultraprocessados, açúcares de adição e bebidas açucaradas.

Lembrando que não são alimentos ou grupos de alimentos fatores disparadores de doenças, mas sim, o estilo de vida e o padrão alimentar. Aqui tem algumas dicas e palestras sobre saúde cardiovascular.

Referências

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DiNicolantonio JJ, Lucan SC, O’Keefe JH. The evidence for saturated fat and for sugar related to coronary heart disease. Progress in Cardiovasc Dis.2016; 58:464-472.

Harcombe Z, Baker JS, Davies B. Evidence from prospective cohort studies does not support current dietary fat guidelines: a systematic review and meta-analysis. Br J Sports Med 2016;0:1–8.

Zock PL, Blom WAM, Nettleton JA, Hornstra G. Progressing Insights into the Role of Dietary Fats in the Prevention of Cardiovascular Disease. Curr Cardiol Rep. 2016. 18:111.

Siri-Tarino PW, Sun Q, Hu FB, Krauss RM. Meta-analysis of prospective cohort studies evaluating the association of saturated fat with cardiovascular disease. Am J Clin Nutr 2010;91:535–46.

Grasgruber P, Sebera M, Hrazdira E, Hrebickova S, Cacek J.Food consumption and the actual statistics of cardiovascular diseases: an epidemiological comparison of 42 European countries. Food & Nutrition Research. 2016.

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