• Fernanda Ramos

Quem cuida do cuidador?

Atualizado: 14 de Jul de 2019


Ou, é preciso olhar para além do cuidado ao paciente domiciliado!


Todos nós conhecemos ou já ouvimos falar de pessoas dependentes para as atividades de vida diária. Nesse contexto, entra em cena alguém muito importante: o cuidador! É ele quem dará todo o suporte necessário, desde as necessidades básicas, como banho, troca de roupa, alimentação, administração de medicação, até as mais complexas como acompanhamento em consultas médicas, administração financeira do cuidado e auxílio na reabilitação, por exemplo.

Mas, você já parou para pensar que os cuidadores dedicam boa parte do seu dia no cuidado do outro? Que, muitas vezes, abrem mão da sua própria rotina em função do outro?

Em vários estudos, observa-se que os cuidadores têm características semelhantes. Geralmente são mulheres, acima de 50 anos, filhas ou cônjuges, e moram com o receptor do cuidado. Um estudo brasileiro mostrou que em 36% dos casos, os cuidadores desempenham o papel de forma solitária e sem auxílio financeiro.

Cuidar é um ato complexo e ao mesmo tempo singular, pois estão envolvidos sentimentos contraditórios e diversificados entre o cuidador e o receptor do cuidado. Sentimentos como culpa, raiva, medo, confusão, tristeza coexistem com alegria, gratidão, esperança, sonhos, fé.

É desafiador conciliar o papel de cuidador com a manutenção dos diversos papéis e relações sociais nas quais esse indivíduo está inserido. Pode ocorrer isolamento social, menor oportunidade de prática de exercício físico e momentos de recreação, além da interferência nas relações familiares.

O termo burden ou sobrecarga, descrito pela primeira vez por Zarit, em 1980, descreve o impacto do cuidado a uma pessoa dependente, em condição crônica, e inclui os problemas físicos, psicológicos ou emocionais, sociais e financeiros vividos por famílias cuidadoras, representados tanto por aspectos subjetivos quanto objetivos, advindos do impacto do cuidar. Aqui tem o artigo da versão brasileira da escala Burden Interview.

Essa sobrecarga produz sintomas, que podem ser físicos, quanto psicológicos ou emocionais. Fadiga constante, distúrbios do sono, dores musculares, cefaleia, impaciência, ansiedade, irritabilidade, agressividade, tensão constante, entre outros, são comuns. E quanto maior a sobrecarga, mais sintomas estão presentes.

Essa sobrecarga é dependente da demanda quali ou quantitativa que vai além da capacidade de desempenho do cuidador, gerando estresse e exaustão emocional.

Nesse momento, as equipes de saúde de apoio à família tem papel fundamental, desde a identificação até o desenvolvimento de estratégias de apoio e promoção de resiliência nos cuidadores. Dentre as estratégias estão a apropriação e empoderamento do cuidador na aprendizagem do saber fazer, melhorando a percepção do seu papel. Além disso, devem permear o cuidado à família o suporte emocional e psicológico, meios de aliviar a tensão, dar acesso a redes de apoio formais, manter escuta ativa, com informação e comunicação adequadas e de acordo com as necessidades do cuidado. Em 2008, o Ministério da Saúde lançou o Guia Prático do Cuidador.

Tudo isso contribui para que cuidadores encontrem recursos de assistência e enfrentamento, saibam lidar com os desafios diários e as adversidades da vida, ofertando melhor cuidado e tendo mais qualidade de vida.

Referências

Muniz EA, Freitas CASL, Oliveira EN, Lacerda MR. Grau de sobrecarga dos cuidadores de idosos atendidos em domicílio pela estratégia Saúde da Família. SAÚDE DEBATE. Rio de Janeiro, 2016; v. 40, n. 110, p. 172-182.

Peña-Ibáñez F, Álvarez-Ramírez MA, Melero-Martín J. Sobrecarga del cuidador informal de pacientes inmovilizados en una zona de salud urbana. Enfermería Global. 2016.

Luchesi BM. Idosos cuidadores de idosos: atitudes em relação à velhice, sobrecarga, estresse e sintomas depressivos. 2015. 200f. Tese (Doutorado) – Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, 2015.

Fernandes CS, Angelo M. Family caregivers: what do they need? An integrative review. Rev Esc Enferm USP. 2016;50(4):672-678.

Manzini CSS, Brigola AG, Pavarini SCI, Vale FAC. Fatores associados à resiliência de cuidador familiar de pessoa com demência: revisão sistemática. Rev. Bras. Geriatr. Gerontol., Rio de Janeiro, 2016; 19(4):703-714.

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