• Isis Stelmo

Diga-me onde moras...



... que saberei quais alimentos tens disponíveis.

As Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNTs), como Obesidade, Diabetes, Doenças Cardiovasculares são assuntos recorrentes da mídia. Diz-se que há aumento no consumo de alimentos ultraprocessados, ricos em açúcares simples, gorduras, excesso de sal, conservantes e corantes. Sim, isso tudo é verdade!

Contudo, como já abordamos em "São Muitos Fatores", a obesidade, assim como essas outras doenças citadas, são multifatoriais, ou seja, não há uma única causa. Os riscos de desenvolvê-las ou não estão relacionados aos hábitos e às escolhas individuais, herança genética e, sim, também o ambiente, no caso, a nossa estrela de hoje.

E por que deve-se dar toda essa importância ao ambiente, especificamente falando, o alimentar? Frequentemente, quando leio notícias, matérias ou assisto programas cujo assunto é a preocupação com a saúde ou dietas da moda, chamar atenção para as DCNTS, incentivo à atividade física, aquisição de hábitos saudáveis, etc, a ênfase colocada é sempre no indivíduo, como se o sujeito tivesse todas as condições para essa tomada de decisões.

Considerando o Brasil um país de realidades diversas e extrema desigualdade social, é perceptível a discrepância de acesso a serviços básicos de qualidade, como saúde e educação, além, claro, da diferença da disponibilidade de equipamentos sociais em áreas mais e menos vulneráveis.

Pensando nisso, algumas pesquisas foram realizadas em vários lugares, como Estados Unidos e também no Brasil, as quais questionavam se diferentes estratos sociais têm o mesmo acesso a comida de qualidade.

O resultado desses estudos mostra que em áreas vulneráveis há maior concentração de bares, bombonieres e locais que vendem alimentos ultraprocessados, e são desertos alimentares no que diz respeito ao acesso à alimentos in natura, com poucas feiras livres (às vezes, nenhuma) e quando são comercializadas, custam mais do que a população local pode pagar.

Além disso, em bairros mais vulneráveis são escassos os locais de lazer, como praças e parques, e muitos moradores enfatizam o problema da segurança. Então, como incentivar a prática de atividade física se a população não se sente segura andando na rua? E muitos não têm poder aquisitivo para arcar com uma academia de qualidade (e que muitas vezes nem existe na região).

Em contrapartida, áreas mais ricas da cidade possuem maior variedade de supermercados, feiras, feiras orgânicas, sacolões, e há grande oferta de alimentos in natura, praças, parques, guaritas com seguranças particulares, policiamento, etc.

Logo, quando pensamos no ambiente, uma parcela de "culpa" é retirada da conta do indivíduo quando indagamos por que não há aderência a hábitos saudáveis, dadas todas essas dificuldades citadas anteriormente.

Olhar para além das escolhas individuais e observar o processo histórico que interfere nas tomadas de decisões dos sujeitos é essencial para delinear soluções adequadas a população considerada.

Referências:

MONTEIRO, C. A; CONDE, W. L.; LU, B.; POPKIN, B. M. Obesity and inequities in health in the developing world. Int J Obes Relat Metab Disord, v. 28, p. 1181–1186, Jun. 2004.

MORLAND, K.; WING, S.; DIEZ-ROUX, A. The contextual effect of the local food environment on residents’ diets: the atherosclerosis risk in communities study. Am J Public Health, v. 92, n. 11, p. 1761-1767, Nov. 2002

POPKIN, B. M.; DUFFEY, K.; GORDON-LARSEN, P. Environmental influences on food choice, physical activity and energy balance. Physiol Behav, v. 86, n. 5, p. 603-613, Dec. 2005.

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