• Fernanda Ramos

“Esse estresse pode te matar!”


E pode mesmo! Ou vai te deixar doente, pelo menos!

O estresse é uma resposta adaptativa natural do organismo às situações de instabilidade ou ameaça. Ele é um mecanismo importante para sobrevivência de uma espécie e ativa a resposta de “luta ou fuga”.

De forma geral, as pessoas possuem resiliência e são capazes de lidar com situações adversas, por meio de mecanismos psíquicos, comportamentais e dos sistemas neuroendócrino e imune.

No entanto a reação ao estressor é individual, dependente de experiências anteriores, significação da situação e até mesmo de fatores genéticos. Alguns estudos mostram ainda que o estresse em determinados estágios da vida pode alterar a regulação dos processos inflamatórios, a função cerebral e a resposta periférica ao estresse. Isso significa, afinal, que percepções diferentes geram respostas metabólicas de intensidade maior ou menor e que podem ocorrer alterações permanentes decorrentes desse processo.

O estresse é primariamente uma resposta aguda, que realça a codificação da memória e da situação, melhora a retenção da memória, a tomada de decisão e o controle neuromotor.

Uma meta-análise de 2016 mostrou que os efeitos agudos do estresse geram uma atenção seletiva em algumas condições, ainda não elucidadas, bem como a melhora da memória.

Logo, muito bacana!

Mas situações a longo prazo como pressão social, no trabalho, sobrecarga de diversas origens, ou mesmo situações mais extremas como abuso sexual, trauma, guerras e catástrofes ambientais, por exemplo, podem prolongar o estresse e seus efeitos. E é aí que começam os problemas.

Aqui vamos enfatizar as alterações metabólicas, mas vale a pena buscar mais informações sobre as alterações e consequências emocionais e de comportamento desse processo.

Primeiro, a cascata de reações agudas acontece assim:


Figura 1: Sinalização metabólica a um estressor

E o prolongamento da resposta ao estresse tem como consequências:

1. Sistema cardiovascular: quando estimulado continuamente, a consequência é aumento de pressão permanente, hipertrofia vascular, hipertrofia ventricular e aterosclerose (pelos mecanismos inflamatórios). Também é relatado aumento de mortalidade.

A associação entre estresse e hipertensão arterial foi encontrada em dois estudos, o West Scotland Study e o Dutch Famine Birth Cohort Study.

2. Sistema imune: os hormônios contra regulatórios produzidos suprimem a imunidade.

Isso dificulta cicatrização, recuperação cirúrgica, diminui a resposta a anticorpos de vacinas e confere maior vulnerabilidade a vírus.

3. Sistema neuroendócrino: a ativação prolongada desse sistema pode desregular os eixos hipotálamo-pituitária-adrenal e o simpático-adrenal-medular. Cortisol e adrenalina podem afetar o pâncreas.

A ativação crônica do eixo hipotálamo-pituitária-adrenal e eixo simpático-adrenal-medular e mecanismos associados, em conjunto com a amplificação das citocinas pro-inflamatórias (como TNFα e IL6), contra regulam a insulina e podem induzir a resistência à insulina e a disfunção de células β do pâncreas.

O Australian Longitudinal Study on Women’s Health, publicado em 2017, com 12 anos de acompanhamento de mais de 12.000 mulheres, encontrou ligação entre estresse percebido e o Diabetes tipo 2, como um fator de risco para o desenvolvimento da doença.

O Nurses Health Study II encontrou resultados semelhantes no estresse pós traumático.

Além disso são relatados como efeitos decorrentes do estresse:

- Ansiedade

- Desordens de comportamento

- Agressividade

- Depressão

- Obesidade

- Bulimia

- Tabagismo

- Alcoolismo

- Desordens do sono

Ou seja, controlar o estresse e cuidar da saúde mental pode gerar mais benefícios a saúde do que se pensa!

Confere o vídeo (em inglês) sobre o tema!


Referências

Neil Schneiderman, Gail Ironson, and Scott D. Siegel. STRESS AND HEALTH: Psychological, Behavioral, and Biological Determinants. Annu Rev Clin Psychol. 2005; 1: 607–628. doi:10.1146/annurev.clinpsy.1.102803.144141

Carroll D, Ginty AT.,Whittaker, Lovallo AC, William R, Susanne R.The behavioural,cognitive,and neural corollaries of blunted cardiovascular and cortisol reactions to acute psychological stress.Neuroscience and Biobehavioral Reviews http://dx.doi.org/10.1016/j.neubiorev.2017.02.025

Harris ML,Oldmeadow C, Hure A, Luu J, Loxton D, Attia J (2017) Stress increases the risk of type 2 diabetes onset in women: A 12-year longitudinal study using causal modelling. PLoS ONE 12(2):e0172126.doi:10.1371/journal. pone.0172126

Shields GS, Sazma MA, Yonelinas AP. The effects of acute stress on core executive functions: a meta-analysis and comparison with cortisol. Neuroscience and biobehavioral reviews. 2016

#estresse #hipertensão #Diabetes #Saúdemental

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