• Fernanda Ramos

Sal e suas controvérsias centenárias


O sal, ou cloreto de sódio, desempenha diversas funções na manutenção de etapas metabólicas, como na excitação de células musculares e nervosas, controle do balanço ácido-básico, regulação do balanço hídrico e controle na absorção de nutrientes.

Na alimentação ele confere sabor e é usado na conservação de alimentos.

Estão disponíveis para consumo diversos tipos de sal, que variam suas características nas quantidades de sódio e outros minerais na composição, coloração, sabor, textura e aplicações culinárias.

Para além dos seus benefícios, o sal possui recomendações de consumo máximo e é restringido em algumas doenças, já que pode ter efeitos negativos.

Sua ligação com aumento da pressão arterial mantém-se controversa até hoje embora esse tópico venha sendo investigado há mais de 100 anos.

  • A história

A hipótese de que o sal é responsável pelo aumento da pressão arterial foi levantada por Ambard e Beauchard em 1904, onde observaram tendência à redução da pressão arterial com a redução do consumo de sal em 3g/dia em hipertensos, ainda que a restrição de sal não normalizasse completamente a pressão arterial.

Nas décadas seguintes, até meados de 1950 muitos estudos na prevenção de hipertensão e de doenças renais foram desenvolvidos, e foi em 1929 que Berger e Fineberg encontraram que dietas pobres em sal não eram tão efetivas na redução da pressão arterial.

No entanto esses estudos apresentavam problemas como não ser randomizados e controlados e ter baixo número de participantes, tornando as evidências frágeis.


  • Atualidade

Hoje, sabe-se que o consumo excessivo de sal está associado ao aumento do risco de hipertensão, doenças cardiovasculares e doenças renais. É recomendado, então, o consumo de no máximo 5g/dia de sal (ou 2000mg de sódio) (igual a 5 colheres de café), considerando o sal para cozimento, de adição e o presente nos alimentos industrializados. Para negros e asiáticos, adultos e idosos, hipertensos, diabéticos e doentes renais é recomendado consumo de até 4g/dia, por serem considerados sensíveis ao sal.

O conceito de indivíduos sensíveis e não sensíveis ao sal vem do fato de que quando há alto consumo de sal algumas pessoas tem alteração de pressão arterial enquanto outras não. Estão envolvidos nesse mecanismo polimorfismos genéticos, idade, etnia e morbidades como síndrome metabólica e obesidade.

  • A controvérsia

Entre os hipertensos há considerável redução da pressão arterial sistólica e diastólica na redução de consumo de sal, enquanto em normotensos o mesmo efeito não é encontrado, como observado na revisão da Cochrane deste ano.

O PURE e o INTERSALT, dois grandes estudos randomizados e controlados, não conseguiram provar a causalidade entre o consumo de sal e pressão arterial, sendo apenas sugestivos nessa relação.

Esse resultado pode ser explicado pela ativação do sistema hormonal de regulação de sódio, o sistema renina-angiotensina-aldosterona, quando há redução do sódio plasmático, que tem como efeito a manutenção da pressão arterial, retenção de sódio e água pelos rins, enquanto hormônios contraregulatórios como adrenalina e noradrenalina aumentam a frequência cardíaca, afim de manter a homeostase. Logo, não há redução significativa da pressão arterial.

Alterações importantes foram mostradas na mesma revisão da Cochrane, como aumento de renina, aldosterona, adrenalina, noradrenalina, como mecanismo compensatório da redução de consumo de sal e também aumento de colesterol e triglicérides em normotensos.

  • Conclusão

  1. Não há evidência até agora de benefícios da redução de consumo de sódio abaixo de 2000mg, logo não há necessidade de restrições severas, independente do tipo de sal.

  2. Também não significa que há liberação do consumo de sal, já que este em excesso mantém seus efeitos negativos.

  3. A redução de consumo deve ser feita de forma paulatina, para adaptar o organismo e não gerar mecanismos compensatórios exacerbados.

  4. No controle da pressão arterial, outros mecanismos podem ser associados, como aumento do consumo de potássio e manutenção de peso adequado, por exemplo.

  5. No caso de doenças, siga a orientação médica e nutricional individualizada.

DiNicolantonio JJ, O’Keefe JH, The History of The Salt Wars. The American Journal of Medicine. 2017. doi: 10.1016/j.amjmed.2017.04.040.

Rust P, Ekmekcioglu C. Impact of Salt Intake on the Pathogenesis and Treatment of Hypertension. Adv Exp Med Biol. 2017;956:61-84. doi: 10.1007/5584_2016_147.

Garfinkle MA. Salt and Essential Hypertension: Pathophysiology and Implications for Treatment. Journal of the American Society of Hypertension. 2017. doi: 10.1016/ j.jash.2017.04.006.

Graudal NA, Hubeck-Graudal T, Jurgens G. Effects of low sodium diet versus high sodium diet on blood pressure, renin, aldosterone, catecholamines, cholesterol, and triglyceride. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2017. DOI: 10.1002/14651858.CD004022.pub4.

#sal #hipertensão #DoençasRenais #doençascardiovasculares

0 visualização