• Fernanda Ramos

Rotulagem de alimentos: da teoria à prática

Atualizado: 16 de Jul de 2019


Garantir a adequada tomada de decisão sobre o consumo de alimentos é de grande importância para todos, ainda mais quando se observa em todo o mundo o aumento da prevalência de doenças crônicas não transmissíveis acompanhada do aumento do consumo de açúcares simples, gordura trans e sal, presentes principalmente nos alimentos processados e ultraprocessados.

É sabido que o ambiente alimentar é um dos principais determinantes das escolhas alimentares e do acesso aos alimentos, mas também que o conhecimento sobre as características dos alimentos contribui significativamente para uma escolha mais adequada.

Nesse contexto a rotulagem nutricional dos alimentos tem papel fundamental, associada a outras ações, com informações obrigatórias da composição do alimento.


Mas a prática mostra muitas dificuldades! Ao selecionar um alimento para interpretar suas características nos deparamos com:

  • Termos técnicos de difícil entendimento:

Açúcar: a informação na tabela nutricional expressa no termo ‘carboidratos’ não permite saber o quanto e qual tipo de açúcar existe no produto.

Sal: é descrito como sódio, sendo necessário fazer conversões para saber a quantidade total de sal ou tentar interpretar a partir das porcentagens fornecidas.

Gordura trans: muitas vezes aparece com 0g e ** na tabela. Só que a informação é na porção e não no produto como um todo.

Próximo passo: olha na lista de ingredientes!

E na lista ingredientes, em letra miúda ... mais dificuldade!

O açúcar pode estar descrito como glucose, xarope de milho, néctares, frutose, sacarose, açúcar invertido, mel, melaço, dextrose, maltodextina ...e por aí vai...

O sal pode estar contido nos diversos ingredientes ‘... de sódio’ geralmente no final da lista. Apenas alguns produtos contém o termo ‘sal’ propriamente dito.

A gordura trans está descrita como gordura vegetal hidrogenada na lista.

  • Porções não padronizadas e em quantidade não usual de consumo:

Isso dificulta a comparação entre produtos na tomada de decisão e a quantidade muitas vezes não representa o consumo real do produto. Quem nunca viu “porção 30g ou 2 e ½ biscoito”?

Essa falta de padronização contribui muito pra gente só ver aquele 0g de gordura trans na tabela.

Ou seja, era pra facilitar, mas ta bem complicado!

No Brasil, uma pesquisa feita pelo IDEC (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) em 2016, liderada pela nutricionista Ana Paula Bortoletto, mostrou, numa amostra de cerca de 2000 pessoas das regiões sul/sudeste, dificuldade de entendimento das informações contidas nos rótulos. 40% dos consumidores relataram compreender parcialmente ou muito pouco da tabela nutricional, indicando como pontos críticos o tamanho da letra, uso de termos técnicos e a poluição visual do rótulo.

Nesse levantamento destacou-se a necessidade de uma informação resumida na frente da embalagem para ajudar na compreensão, na forma do ingrediente e não do nutriente, tornando-a mais eficiente. A padronização da porção por embalagem ou sua indicação em 100g também foi levantada.

No Equador, foi introduzida a indicação de alimentos mais saudáveis nas cores do semáforo, associados aos termos baixo, médio e alto quanto ao teor de nutrientes críticos, além da inclusão da quantidade real de açúcar simples e sal. Esse sistema foi bastante elogiado pelos consumidores de lá.

No Chile, selos pretos alertam a quantidade excessiva dos nutrientes críticos.

Em alguns países como Austrália, Reino Unido, Canadá, EUA e Brasil algumas empresas colocam essas informações de forma voluntária.

O IDEC lançou recentemente a campanha “Rotulagem Nutricional Adequada” para pressionar os órgãos reguladores na melhoria dessas informações nutricionais. No entanto, todas essas medidas regulatórias enfrentam, em vários países, pressões por parte das indústrias de alimentos, que, em consequência disso, precisam modificar a composição dos seus produtos para manter as vendas ou retirá-lo do mercado.

IDEC. Consumidores apoiam mudanças nos rótulos, aponta pesquisa do IDEC. Disponível em: http://www4.planalto.gov.br/consea/comunicacao/noticias/2016/consumidores-apoiam-mudancas-nos-rotulos-aponta-pesquisa-do-idec. Acesso em 06 de agosto de 2017.

IDEC. O rótulo pode ser melhor. Revista IDEC. 2016. Disponível em: https://www.idec.org.br/em-acao/revista/rotulo-mais-facil/materia/o-rotulo-pode-ser-melhor. Acesso em 07 de agosto de 2017.

Díaz AA, Veliz PM, Rivas-Mariño G, Vance Mafla C, Martínez Altamirano LM, Vaca Jones C. Etiquetado de alimentos en Ecuador: implementación, resultados y acciones pendientes. Rev Panam Salud Publica. 2017;41:e54.

Sebastian-Ponce MI, Sanz-Valero J, Wanden-Berghe C. Información percibida por los consumidores a través del etiquetado sobre las grasas presentes en los alimentos: revisión sistemática. Nutr Hosp. 2015;31:129-142

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