• Isis Stelmo

O campo minado dos comedores seletivos



Muitos pais trazem relatos sobre aquela fase seletiva na vida dos seus filhos. Famílias inteiras entram em crise quando as crianças passam a se recusar a comer, muitas vezes só querem brincar ou só beber líquidos açucarados ou têm apenas preferência por doces, entre outras manifestações desse comportamento.

Uma das definições para o "comedor seletivo" é: "Consumo inadequado de uma variedade de comidas, por meio de rejeição tanto de alimentos familiares quanto desconhecidos. Nisso pode estar inclusa a neofobia e também a recusa de texturas específicas" (Doyle, et al., 2008). Tradução livre.

Essa situação pode deixar qualquer um de cabelo em pé! E até os mais experientes no ramo da maternagem/paternagem podem ficar sem respostas ou ideias para solucionar o problema.

Após um revisão sistemática publicada por Taylor, CM et al. (2015), mais do que respostas, mais questionamentos foram levantados acerca do "comedor seletivo".

Parece não haver consenso sobre em qual idade é mais prevalente esse comportamento, o que pode também depender de diferenças culturais. Na Holanda, encontraram maior prevalência entre crianças de 4 anos, nos EUA, 2 anos, enquanto uma pesquisa de coorte encontrou uma prevalência de maior seletividade aos 38 meses de idade.

Alguns fatores protetivos foram encontrados, como a presença de irmãos e maior idade materna. Contudo, fatores como personalidade, comportamento dos pais (muito controladores) e suas práticas alimentares, pressão na hora de comer, assim como interrupção do aleitamento materno exclusivo antes dos 6 meses da criança e introdução alimentar antes de 6 meses podem ter influência negativa no desenvolvimento dessa seletividade.

Crianças seletivas geralmente apresentam menor ingestão de frutas, verduras e legumes, consequentemente menor consumo de fibras e um desequilíbrio na ingestão de macronutrientes.

Algumas intervenções podem ser realizadas para atenuar comportamentos de seletividade, como oferecer refeições mais estruturadas, diversas pequenas refeições ao longo do dia, disponibilizar momentos de experimentação de alimentos rejeitados ou de novos alimentos, pelo menos em 10 ocasiões diferentes em preparações diferentes, além de não permitir ingestão de líquidos saborizados e açucarados entre as refeições.

Apesar desses achados, ainda há muitas incógnitas sobre o assunto, sobre fases da infância, definição, comparações entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, etc., deixando o espaço aberto para muitas pesquisas na área.

Caroline M. Taylor, Susan M. Wernimont, Kate Northstone, Pauline M. Emmett. Picky/fussy eating in children: Review of definitions, assessment, prevalence and dietary intakes. Appetite 95, 2015. 349-359

#infância #picky #fussy #eatingpattern #eatinghabits #nutrição #comedorseletivo #crianças #comolidar #saúdepública #pesquisa

4 visualizações