Alergias alimentares: avanços da ciência


Os últimos 10 anos foram marcados por aumento significativo do conhecimento sobre alergias alimentares e nos próximos 10 anos muitas respostas poderão ser consolidadas com a possibilidade de sair da bancada para a prática clínica. E tem muita gente afim de ver isso acontecer!

A Alergia Alimentar é definida como um efeito adverso decorrente da exposição/consumo de um alimento por meio de uma resposta imune específica, que pode ser mediada por IgE, mista IgE e não-IgE ou por processo imune mediado por célula.

Há alto risco de mortalidade nas reações alérgicas a determinados alimentos e por isso, pesquisadores tem se empenhado em terapias específicas de prevenção e tratamento.

Muitos estudos sobre prevenção primária tem sido publicados recentemente e a gente já falou um pouco sobre isso no post “Prevenção de alergias alimentares”.

Atualmente, o tratamento convencional inclui uso de anti-histamínicos dependendo do tipo de reação alérgica, restrição à exposição ao alimento/alérgeno e administração de epinefrina em casos de anafilaxia. Para saber mais sobre como escolher melhor os alimentos/produtos alimentícios, confere o post “Alergia alimentar: como me proteger”.

Curiosamente, se tratando de uma reação adversa a exposição/consumo de alimentos, já é reconhecido que o tipo de cocção influencia na tolerabilidade destes. Sabe-se que, em geral, o aquecimento diminui a alergenicidade de determinadas proteínas, como ocorre com o leite e com o ovo, por exemplo. Por outro lado, a cocção seca de oleaginosas pode aumentar a alergenicidade devido à reação de Maillard produzida no processo.

Quanto as novas terapias, estudos estão em fase de testes e alguns deles são baseados em desensibilização.

A desensibilização é feita através de imunoterapia em diferentes vias de administração, sendo a mais comum a via oral. Ela envolve administração gradual de doses crescentes de antígeno por determinado período de tempo (de meses a anos).

A ideia é gerar hiporresponsividade alergênica, que nada mais é que o sistema imune não reconhecer o alérgeno e, por consequência, não iniciar a cascata inflamatória quando o alimento é ingerido de forma controlada.

Resultado: pode haver necessidade de maior quantidade de alimento para produzir reação alérgica ou mesmo supressão dessa reação. E isso é bem interessante nos casos de exposição acidental.

É relevante entender que se o tratamento for suspenso, os efeitos não são contínuos.

É importante saber ainda que não há liberação para uso de imunoterapia pelos órgãos reguladores, como FDA e ANVISA, há necessidade de mais estudos para garantir segurança no uso dessa terapia e que há efeitos adversos importantes, incluindo alguns relados de anafilaxia.

Falta dose adequada, falta esclarecer qual a melhor via de administração e como reduzir os efeitos colaterais, mas é uma promessa bem interessante de tratamento.

Associado a desensibilização, terapias complementares estão em teste, como o uso de probióticos na regulação intestinal da resposta imune.

E afinal, fica o desafio para os próximos anos: desenvolver imunoterapia específica para cada tipo de alergia alimentar e também gerar meios de reduzir a resposta alérgica em geral.

Referências

Moore LE, Stewart PH, deShazo RD, Food Allergy: What We Know Now, The American Journal of the Medical Sciences, http://dx.doi.org/10.1016/j.amjms.2016.11.014

Hamad A, Burks WA. Emerging Approaches to Food Desensitization in Children. Curr Allergy Asthma Rep (2017) 17: 32

Nakagura K, Sato S, Yanagida N, Ebesawa M. Novel imunotherapy and treatment modality for severe food allergies. Curr Opin Allergy Clin Immunol 2017, 17:212–219

Cultura E Tal:

The Baker's Wife (1938)

O filme é baseado em um livro de Jean Giono, um doce conto pastoral, sobre um padeiro que fica pertur-bado quando sua esposa o deixa.

O padeiro então passa-se a recusar a fornecer pão à aldeia até ela voltar para ele.